Situs Inversus
Hoje descobri um novo significado: Situs Inversus.
O nome é magnifico. Daqueles nomes que nos dá vontade de escrever um livro, só para podermos colocar um titulo tão extraordinário e apelativo.
Para além do nome, o impacto vai para além da beleza da fonética do latim que as duas palavras dispõem, mas o seu significado é sem dúvida algo de extraordinário e um mistério da natureza. Situs Inversus é uma doença genética que consiste exactamente na disposição inversa dos órgãos humanos.
Esta minha prosa surgiu pelo facto de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) descobrirem um gene essencial para a disposição correcta dos órgãos no corpo e terem sido referidos na revista americana "Genes and Development". Neste contexto, dois comentários: apesar do atraso de investigação cientifica neste país ainda temos algumas mentes brilhantes que ainda não emigraram (Gulbekian, Gulbenkian...); damos tanta importância a artigos de edições internacionais quando falam em portugueses, o que revela a nossa fraca auto-estima (ou realismo ?).
No seguimento do meu fascinio pela Situs Inversus deixo-vos um texto de um indivíduo...Situs Inversus:
Situs Inversus
Vejo minha vida. Nasci ao contrário. Não quero apenas dizer que nasci de bunda invés de cabeça. Isso também aconteceu, mas não foi somente em relação que nasci ao contrário. Sofro de situs inversus, todos meus órgãos situam-se conforme um espelho de um organismo normal. Sofri um pouco até descobrir isso. Meu coração, estando do lado direito do peito, causou susto quando fui a um médico pelo que me lembro pela primeira vez. Eu tinha treze anos, nunca tinha ido a um médio, era um menor abandonado, ainda sou abandonado, apenas cresci. Ele fez alguns exames de rotina, língua, garganta, aaaaaaaaa. Tremi quando ele encostou pela primeira vez aquele estetoscópio gelado nas minhas costas. Tremi quando o encostou no meu peito, continuava gelado. Tremi quando vi a cara de pavor do médico. Ele guardou o estetoscópio e me olhou com uma cara estranha. Sentia um sentimento escorrer por seus olhos, algo que não entendia. Ele tinha dó, achou que eu estava fadado a morrer jovem de uma doença desconhecida. Nada mudou, continuei na rua. Entrei para o crime, como todos os garotos da minha idade. Mas a imagem daquele médico sempre me acompanhou. Decidi que iria viver cada dia como se fosse o último, já que qualquer dia poderia ser o último. Virei o melhor marginal do morro do osso. Como a morte não vinha e eu já estava chegando aos trinta anos, resolvi parar. Assumi uma boca de fumo e fiquei vivendo tranquilamente. Tinha até vontade de sair do crime. Com o dinheiro que tinha podia abrir um bom negócio honesto. Sempre quis ter uma padaria. Um dia, muito mudou. Sentia fortes dores do lado direito da barriga. Fui parar na emergência de um hospital público. Apendicite, estourou, vamos operar logo, disse alguém. Abriram, mas não acharam nenhum apêndice e as dores eram provenientes de cólicas intestinais. Não sei quem foi, talvez um médico mais aplicado descobriu que eu fazia parte de um selecto grupo de pessoas, 0,01% da humanidade mais precisamente, que tinha essa particularidade chamada situs inversus. Tudo fez sentido. A incompetência do médico que me examinara aos treze anos, talvez tivesse sido um presente, que me fez prosperar na vida. A vida continuou e eu não abri meu negócio. Continuei vivendo da boca de fumo, até que alguém viu que o lucro estava grande e resolveu que queria aquilo para si. Bang, bang, bang três tiros no meu peito, lado esquerdo, onde seria o coração. No meu caso sofri apenas perfurações no pulmão esquerdo, o que dificultou por algum tempo minha respiração e ocasionou algumas pneumonias, mas tudo recuperável. Minha fama aumentou. Diziam que eu tinha o corpo fechado, pacto com o demo, talvez o próprio coisa-ruim. Aproveitei e aumentei meu domínio. O morro do osso ficou pequeno, assumi todo o império das drogas da capital. Virei figurão. Contato com políticos, conta na Suíça, viagens para o exterior. Tudo isso passando em frente aos meu olhos neste momento enquanto estou em uma praia da riviera francesa deitado na areia, sufocando com água e um salva-vidas fazendo massagem cardíaca do lado errado.
A.M.